O estresse financeiro de contas em atraso podem trazer impactos não apenas para saúde mental, mas também para o corpo. De acordo com uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 86% dos consumidores inadimplentes há mais de três meses declaram sofrer danos à saúde física decorrentes do estresse financeiro. Em Natal, onde a inadimplência chegou a cinco pontos percentuais (34,1%) acima da média registrada no país (29,8%) em julho, especialistas avaliam como o cenário financeiro negativo pode impactar além do orçamento doméstico.
Para Helington Costa, coordenador do curso de Psicologia na Estácio, o impacto das dívidas sobre a saúde está relacionado, entre outros fatores, à dificuldade de prever e controlar o que virá. “Quando uma pessoa está endividada, especialmente quando não consegue visualizar uma saída, o cérebro passa a lidar com a situação financeira como um problema que permanece em aberto. O que ajuda a explicar por que alguém pode estar trabalhando, pagando as contas e, ainda assim, permanecer psicologicamente exausta”, explica.
Com o passar do tempo, esse estado de alerta pode contribuir para a redução da capacidade de sentir prazer e maior dificuldade para lidar com situações cotidianas, o que impacta também as relações pessoais e familiares.
“O dinheiro frequentemente está associado a projetos de vida, segurança, autonomia e responsabilidades familiares. Por isso, o estresse financeiro pode transformar pequenas situações em grandes conflitos”, detalha o neuropsicólogo.
Além dos impactos emocionais, o estresse também pode se manifestar fisicamente, provocando sintomas como fadiga, alterações gastrointestinais e dores musculares. Segundo Ana Luiza Teixeira, fisioterapeuta e coordenadora do curso de Fisioterapia da Estácio, a tensão prolongada pode afetar diferentes grupos musculares. “A região cervical, os trapézios e a musculatura mandibular entram em estado de tensão crônica, restringindo o fluxo sanguíneo local e acumulando resíduos ácidos que irritam as terminações nervosas e geram dores musculares, dores de cabeça tensionais e rigidez articular”, completa.
Como se planejar financeiramente
Para quem enfrenta dificuldades para manter as contas em dia, o primeiro passo é conhecer com clareza o tamanho da própria dívida. Segundo o docente do curso de Administração César Barreto, o diagnóstico deve reunir informações como o valor atualizado de cada dívida, as taxas de juros, o valor das parcelas e as condições de cada contrato. Também devem ser incluídos compromissos informais, como valores emprestados por familiares e amigos ou compras pendentes no comércio local.
“Quando se consolida todos esses dados em um único mapa, é possível visualizar o custo real do passivo financeiro. Muitas vezes o devedor descobre que está pagando mais de dez a quinze por cento ao mês em juros no cartão rotativo ou cheque especial, quando poderia estar buscando alternativas de crédito com custos muito menores”, orienta.
Com o orçamento comprometido, a recomendação é priorizar despesas essenciais para a manutenção da vida e da renda, como moradia, alimentação, medicamentos, água, energia, gás e transporte para o trabalho. O especialista também recomenda concentrar parte significativa dos recursos disponíveis na quitação das dívidas mais caras, especialmente aquelas com juros elevados.
Outra medida importante é evitar novas compras enquanto as dívidas antigas ainda estão sendo quitadas. Para isso, o César Barreto recomenda “consumir estritamente com dinheiro físico, débito automático ou PIX, respeitando sempre o saldo disponível em conta”.
Além da organização das contas, o cuidado com a saúde mental também deve fazer parte desse processo. Para Helington Costa, reconhecer que a situação financeira é circunstancial pode ajudar a reduzir a carga emocional associada às dívidas. “É fundamental separar a situação financeira da identidade da pessoa. Estar endividado é uma condição pela qual alguém pode estar passando e não uma definição de quem essa pessoa é”, pontua.


